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Archive for the ‘Quarta crônica’ Category

Letícia Nascimento

Sempre que vou assistir a um filme no último horário do Multiplex Catuaí e esse filme é de certa forma assustador ou violento, saio meio apreensiva da sessão. Enquanto atravesso os corredores do shopping rumo ao estacionamento, me vejo prestes a ser atacada por um tsunami, agentes federais ou criminosos pesadamente armados mesmo. É a sensação do escuro, do vazio, das possibilidades. E também coisa de quem tem criatividade aflorada, que chega a irritar. Bom, o fato é que tenho 22 anos de Londrininha e nunca imaginei que algo, realmente, fosse acontecer ali na tranquilidade do Catuaí. Até que eu vi uma atualização no Facebook…

Era de uma amiga e dizia: “não estamos seguros nem no shopping. assalto na loja, e o cara atirou no meio da praça de alimentação! o.O”.  Os amigos se manifestaram nos comentários e horror era a palavra mais usada. Corri para o Twitter e lá descobri que a Laura Almeida, nossa colega linda de turma, estava lá também. Inclusive o Beto Carlomagno, que iria entrar na loja assaltada, a Begerson, e me comprar uma pulseira irônica. Imaginei o pânico de todo mundo e continuei a procurar informações. Por sorte, dessa vez, não houve nenhum ferido, mas na hora veio a lembrança dos corredores vazios e de um pânico entre os cinéfilos saindo do próximo filme do Nolan. Só que não era tão tarde quando houve o tiroteio…

As redes sociais me mostram, cada vez mais, a importância para se comunicar e transmitir informações em pouco tempo. Há uns cinco anos, o lance do tiroteio seria divulgado no boca a boca, quando alguém que estivesse presente contasse, ou em ligações emergenciais para pais e amigos, dos que tivessem ficado mais desesperados. Por esses dias modernos, dá pra imaginar quantas pessoas ligaram seus aparelhos celulares, tablets, notes, qualquer um que não sei o nome, utilizando a Wi-fi do próprio Catuaí para apontar essa triste falha em sua segurança. Porque, sim, nós que crescemos  indo ao cinema, ou ao boliche, ou fazendo nada em tardes aborrescentes, lembramos que nem sempre vemos muitos seguranças por lá, e tudo mais.

Ontem minha irmã me ligou, dizendo pra irmos almoçar no Catuaí. Pedido aceito, fui com a intenção de encontrá-lo meio triste, marcado pelo ocorrido, mas aí me lembrei que não haviam mortos e por isso tudo estava tão “normal”. Nem sinal de mais segurança, nem informações ou, sei lá, pedidos de desculpa no site do shopping, tudo certinho. Mas será, gente, que tudo está normal? É o que vou me perguntar, com o dobro de medo, toda vez que eu sair da última sessão do cinema. Oh, wait! Não precisa mais ser a última pra eu me preocupar.

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Da veneziana que escurece o quarto e do filho deitado do meu lado. De acordar e beijar meus filhos, enquanto eles espreguiçam com olhares de “já?!”. Caminhar por um corredor para poder ver tv – chega uma hora que ter tudo do seu lado cansa. Dar bom dia para alguém com o cabelo desarrumado, seja na cama ou no banheiro. Acordar em meio à risadas ou carinhos e beijinhos. A falta de uma companhia para tomar o lanche da tarde ou assistir a novela.

Disputar espaço no sofá com os filhos, as sobrinhas, a família. Ver a filha jogando água em si mesma. Sentir o cheiro de preguiça do filho. Fazer cócegas na matriarca e morrer de rir com seu desespero. Pular na cama antes de dormir. Bater papo com a irmã. Subir algumas quadras para comer pão de queijo e conversar na cozinha. Cheirar cremes, olhar esmaltes e discutir dietas com o nariz mais cobiçado da região.

Entrar correndo no prédio com o lindo sorrindo atrás. Dar um beijo no elevador e novamente correr até o quarto. Raspar o pé no lençol recém-colocado. “Bom dia começa com alegria!”. Onde está a alegria? Continua aqui, mas não completa. Chega uma hora que a falta traz cansaço e pesar e saudosismo até mesmo nos bons momentos. Lembre-se, menina, são só mais 3 dias. 1+2. 1+1. 1+0. 0.Ah, se a matemática fosse humana…

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Inveja

Por Fernanda Cavassana

Eis que no meio da tarde, no meio de tanta coisa para eu fazer, no meio de um trabalho fotográfico, aparece

Inveja. Queria eu ser pessoa que ela era. Queria eu ter uma tarde disponível para uma leitura. Ultimamente nem os livros da faculdade – obrigatórios – acabam lidos. Férias, vem logo? Vem correndo. Porque nessas, eu vou passar grudada nos meus 10 zerados que clamam por atenção.

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por Leonardo Caruso

Morar na bagunça.

Até pouco tempo eu estava me sentindo um estranho, alguém fora do ninho. Meu apartamento é totalmente bagunçado, muitos livros e CDs jogados, roupa por toda a casa (que é minúscula, por sinal), a cama não arrumada (e já tem mais de mês isso), além das minhas tralhas e minha guitarra. Ah, e sempre com aquela quantiazinha de louça a lavar.

Isso, para os padrões de um estudante de jornalismo médio (aqui na UEL) é uma coisa de outro mundo. Todas as casas e apartamentos que visitei sempre estiveram limpos e arrumados. E isso me perturbava. Não é possível que em 2 anos eu tenha relaxado tanto com a faxina de casa…

E não relaxei. O que aconteceu é que eu simplesmente mudei de nicho. Estava habituado a morar com outras pessoas. E outras mais nos “visitavam” TODO dia. Havia uma sala, havia TV, havia almoço coletivo. Era praticamente uma república. E foram as repúblicas que andei visitando ultimamente que me fizeram perceber que a bagunça é a essência de uma vida universitária. Não ela como causa, mas conseqüência.

As repúblicas do meu irmão (em Campinas) e de meus amigos (em São Carlos) são belos exemplos de uma vida universitária longe dos pais: uma bagunça organizada. As roupas sempre estão em algum canto, a mesa sempre tem uma garrafa de alguma coisa ou então um computador, o sofá da sala tem cara de que alguém dormiu por lá mesmo (isso quando o próprio alguém não está com o corpo estiradão). Não podemos nos esquecer das bugigangas espalhadas pela casa e principalmente aquela louça na pia, esperando para ser lavada.

Tudo isso não é relaxo, mas é que como universitários temos muitas coisas para pensar, muitas para fazer. As listas de estudos, o estágio, as baladas, os churrascos e bebedeiras com os amigos. O tempo gasto para nos formarmos, para trabalharmos para nos sustentarmos e, acima de tudo, o tempo de aproveitarmos a companhia dos amigos.

E nesse carrossel todo, a bagunça é irrelevante. É a hora em que o jeitinho é útil, necessário e bem vindo. É sinal de que estamos aproveitando o tempo.

Minha maratona “republicana” me deu uma saudade das brigas pra ver quem vai lavar a bendita louça, quem vai no supermercado ou por ter acordado o amigo com som alto. As minhas andanças só me fazem querer que dezembro chegue e eu possa me mudar.

Além de tudo que escrevi até agora, tem o essencial, que guardei em segredo: vou ser vizinho de uma padaria 24h! E acho que isso é o que mais sinto saudade em qualquer república e é o que está faltando pra minha bagunça.

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Existem algumas reflexões que são recorrentes na vida de cada um. No meu caso, eu sempre penso no porquê o beijo na boca ser tão desejado como forma de carinho ou prazer e não, sei lá, pequenas mordidas no outro, vai saber… Penso também sobre como é possível a paixão nos deixar irredutivelmente tontos e porquê temos nojo de um fio de cabelo na comida mesmo que ele seja nosso.

Ainda que eu nunca vá solucionar a problemática dessas coisas, eu insisto em martelar esses pensamentos na minha cabeça. Acontece que nas últimas semanas eu voltei a pensar em um dilema pessoal por causa de um aumento de dois numerais na balança. Cara, por que a comida é uma válvula de escape pro stress?

Ok, existem pessoas que descarregam na academia, no sono, na televisão, mas acredito que a maioria, pelo menos de mulheres, resolve suas preocupações com uma bela pratada de sobremesa ou um sanduíche lotado de gordura trans.

Não adianta tentar comer um frango grelhado, um sanduíche natural ou uma fruta em calda. Quando você está cansada, preocupada com seus afazeres ou irritada com a vida, só o chocolate e o burguer king com coca liberada resolvem, momentaneamente, seus problemas.

Mas aí está a parte estranha de tudo isso, a comida age como a cocaína: você está tensa, come tudo que tem pela frente, fica satisfeita e curtindo a vibe da gordice, mas aí vem a depressão. Você começa a pensar nas 1500 calorias ingeridas em 20 minutos, em quão gorda essa brincadeira vai te deixar e aquilo que deveria te relaxar, te leva a novas tensões. No meu caso, eu ligo o f… aceito que vou ficar pançuda e volto a comer mais um pouco, de preferência até passar mal.

Isso não é saudável de forma alguma. A psicologia me classifica como uma compulsiva alimentar, ou seja, quando a ansiedade está ligada, eu como até o canto da mesa. Por mais que eu controle isso no dia-a-dia, há situações em que minhas patologias precisam voltar à tona.

E quando eu penso nisso, chego a outra dúvida: será que todos nós não temos uma compulsão que é liberada em momentos conflituosos? Afinal, há quem sempre se segure por causa do financeiro, mas estando stressada não pensa em nada e torra o salário em um sapato lindo ou aquele que insatisfeito com a vida, decide ir para a balada beijar quantas pessoas forem possíveis. Todos nós somos meio compulsivos.

Ou será que eu penso nisso só para me sentir um pouco mais normal? Vai saber…

 

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Encontrei tudo o que queria escrever nesta crônica.

por Letícia Nascimento

Viver de extremos. Desde sempre. Para nunca mais. Bastou abrir os olhos e sentir a chuva intensa, por trás das cortinas do quarto escuro. A melancolia linda da vida que não é triste, mas que vive das recordações felizes. Nostalgia abraçou o presente e fez lembrar. Dos dois. Aqueles opostos. Extremos. O que mais me amou contra o que mais amei. O que sempre vai gostar de mim contra o que me odiará pra sempre. Vida. Quem explica?

Ele tinha a minha idade e éramos do mesmo tamanho. Durante anos fui mais alta do que ele, mas estávamos naquele ponto em que o menino consegue, enfim, ultrapassar a menina. Uns 11, 12 anos. Eu tinha uma caixa de tênis da Adidas, tênis da minha irmã – eu lembro que eu gostava tanto de All Star que achava Adidas tênis de menino jogador de basquete (qualquer modelo) – enfim, era uma caixa de tênis cheia de cartas, bilhetes, cartões. Tudo escrito com aquela letra-garrancho, que até hoje é melhor que a minha. Joguei a maioria fora. Só guardei um cartãozinho que veio junto com o primeiro buquê de rosas vermelhas. Era um casalzinho de crianças, no melhor estilo romântico-infantil-junte-com-uma-frase-do-Vinícius-de-Moraes. Guardei também a última carta. Porque era a última, claro.

No começo éramos amigos. Bons amigos. De videogame, tênis (tentativas frustradas de), corridas de bicicleta, cinema, Mc Donalds – ele me trazia Big Mac em casa, gelado mas com muita mostarda no pacote – e tudo o mais que a imaginação nos permitisse. Era um querido. Dificilmente brigávamos, raramente brigamos, aliás. Mas aí, numa festa junina, dessas que ocupam uma quadra inteira da rua que não é a da nossa casa, ele rasgou o laço. Me trouxe uma paçoca e disse que precisava conversar. Na hora levei um susto, pensei que alguém tivesse morrido, mas ele disse pra eu comer aquela paçoca enquanto ele falava o que queria. Previa minha reação: nada doce.

Depois disso vieram os telefonemas musicais.

– Letícia, tudo bem?

– Sim e você?

– Bem. Espera aí, que meu pai tá me chamando. Eu suspirava um tá e ele subia o volume de uma música melosa, que eu, de antemão, detestava. Me restava esperar. Depois veio o cachorro, alguns buquês e o dia em que tive de dizer:

– Sinto muito, mas eu não gosto de você. Não desse jeito.

Como amigo eu, realmente, o amava. Ele tinha paciência pra minha falta de paciência, jogava todos os jogos que eu gostava e a gente podia passar uma tarde inteira tomando geladinho de leite condensado com pedaços de chocolate e conversando. Nós nos sentíamos mais maduros que os outros da nossa idade. Sentirei saudades eternas dele. E, principalmente, de todo o carinho que sempre teve por mim. Às vezes – e isso me ocorreu hoje – sinto que nenhum outro rapaz vai me dar toda a disposição e atenção que ele me deu. Mas aí, lembro que sim. Que vai sim. Que talvez não seja mais o um, aquele, o que me odeia tanto. Mas vai. Alguém vai. Vai.

 Ele gostou de mim por mais uns quatro anos depois que perdemos contato. Sei disso pela última carta. Encontrei no meu baúzinho de memórias a carta resposta à última carta. Escrevi dois anos depois que a dele chegou. Nunca mandei. Nela desejo felicidades, peço desculpas pela música que ele teve que ouvir o colegial inteiro: “ela pisou na fulô, pisou na fulô” – porque algum dos meus amigos otários espalhou que eu estava dormindo quando o buquê dele chegou e chutei pra fora da cama. Nela eu digo: seja feliz. É o que pretendo também.

Letícia Nascimento mantem o blog Arrepios que recomendo.

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