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Posts Tagged ‘cadeira de rodas’

Era tudo o que Rogério precisava, mais uma preocupação para atormentar sua mente. Além do mistério que envolvia a cadeira de rodas e o assassinato da família Fazzioli, uma máquina louca, e ainda a possibilidade de um assassino estar atrás dele.

Não podia ser verdade. Pelo menos não tudo aquilo, era loucura demais para uma pessoa em uma noite só.

Belle entendia que todas aquelas informações estavam estourando o cérebro de Rogério, mas a preocupação e a adrenalina em pensar que o professor presenciou e poderia solucionar o crime eram maiores. A portuguesa sabia que quanto mais o tempo passasse, mais as informações do futuro que Rogério presenciou, assim como as informações do passado, sumiriam.

-Rô, faz um esforço! Se você realmente presenciou a morte da família nesta madrugada, além de conseguirmos ajudar a polícia a pegar um criminoso, podemos te proteger! Você pode ser a próxima vítima.

-Eu não consigo acreditar em nada, acho que vou pifar. Como tudo isso é possível? Como quebrar a barreira do tempo? Você falou que eu posso ver e mudar o futuro, Belle, isso é impossível.

-Eu entendo como deve ser difícil para você, mas você terá que se esforçar, driblar essa dificuldade para tentarmos consertar isso.

-Belle, e a cadeira? Você disse que quando voltou para cá eu havia saído com ela. Qual a relação dela com tudo isso?

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Passaram-se alguns minutos até Rogério se recuperar do susto. Sua cabeça estava à mil, sua ressaca moral também. Sabia que não poderia ter exagerado na vodka, a memória sempre some depois de algumas doses. Agora, forçava sua mente na tentativa de descobrir como a antiga cadeira de rodas da diretora Fabiane fora trazida até sua despensa.

Fabiane perdeu os movimentos das pernas em um acidente de carro há 10 anos. Mesmo com as dificuldades, não abandonou a carreira escolar, conseguindo até a promoção como diretora da escola em que dava aulas. No último semestre, com a troca para uma cadeira mais moderna, a diretora doou seu antigo aparelho para que Rogério o utilizasse em suas aulas de física. A gratidão de Rogério pela doação transformou-se em raiva quando, no outro mês, o valor da cadeira de rodas foi descontado de seu salário. Fabiane não era nada bondosa, e isso combinava mais com sua personalidade.

Apesar do esforço, a lembrança de como a cadeira viera parar ali não voltava à mente. Rogério decidiu ir à reunião, xingando a vodka no caminho, e criando suposições de como o aparelho foi retirado da escola durante a última noite.

Se havia uma coisa que o professor odiava mais que as músicas que seu vizinho ouvia, ela era a reunião bimestral com os pais de seus alunos. Sempre as mesmas perguntas, sempre as mesmas reclamações, e sempre a mesma tática de Rogério: concordar com os pais em tudo para que tomassem o mínimo de seu tempo. Ele nem prestava muita atenção no que lhe diziam. Naquela manhã, o esforço maior era em controlar a vontade de se jogar em cima da mesa e voltar a dormir. A ressaca parecia não querer ir embora.

Rogério estava quase cochilando enquanto a mãe de Jorge reclamava das más companhias do filho, quando uma pontada maior de dor de cabeça veio, e ao apoiar o rosto nas mãos, ele viu uma cena que se assemelhava com o último filme que assistira. Havia um monstro grande, que mastigava ferozmente espigas de milho enquanto cheirava fotos de um álbum sobre uma cadeira. No chão, havia sangue e algo se mexia e gemia próximo dali. Quando outra pontada de dor fez com que abrisse os olhos, Rogério pediu licença para a mãe e se retirou. A caminho do bebedouro reclamou novamente da vodca, que no momento parecia ser a responsável por lhe fornecer até alucinações.

Enquanto enrolava com quinto copo de água, o professor reparou que a diretora passeava pelo corredor. Para ele, Fabiane se assemelhava cada vez mais com um ET. Talvez no futuro, quando cansasse de pegar no pé de seus professores, a mulher tivesse sucesso em um circo ou um zoológico. Ao ver que ela se aproximava do canto em que estava, Rogério suspirou e decidiu voltar à sala de reuniões. Apesar da chatice de sempre com os pais, aquilo era facilmente suportável – e até agradável – quando comparado a qualquer segundo em companhia da diretora.

A reunião com os pais acabou mais cedo do que o costume. Alguns não compareceram por conhecerem a família de Marcelo e terem ido ao velório. Parecia que, finalmente, Rogério poderia dormir pelo resto do final de semana. No caminho de volta pra casa, procurou na sua mente algum aluno que poderia ter pregado uma peça levando a cadeira até sua casa na última noite. Mas logo seus pensamentos se dispersaram. Rogério viu, da esquina do quarteirão de cima, que havia duas viaturas de polícia paradas em frente a sua casa.

Continua…

Para ler a Introdução, clique aqui.

Este episódio foi escrito por Fernanda Cavassana e é o segundo de uma série que será publicada toda segunda-feira. Entenda aqui.

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