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Posts Tagged ‘sentimento’

Por Fernanda Cavassana

Toc, toc.

– Quem bate?

– É a loucura!

– Ah, sai pra lá! Não quero você. Nem aqui dentro, nem perto.

Esqueci, decidi esquecer. Menti. Lembrei, sempre lembro. Gosto, dou risada e vou lembrar. Expulsar, o que decidi é expulsar. Quero distância, quero respirar. Ausência, calmaria. Paz. Alegria, risadas leves, contaminantes, sentidas, exaladas.  O foco muda e as memórias antigas, concorrentes, ganham força e de novo, vida. Os sentidos são deslocados, independentes, decidem sabiamente o que é melhor. Visão, olfato, tato, paladar, audição. E no meio de tanta agitação,  de cinco histórias em alta, eis que o sexto se exalta, me toca, incomoda. Uma música e, em uns minutos, todos os últimos meses de volta. Todo o resto se diminui, os sentidos se fundem. Depois da meia noite, três minutos e vinte segundos de recaída. E só. Depois, deixo ela só aqui. Só aqui, guardadinha. O tempo suficiente para não trazer insegurança alguma.

Toc, toc.

– Loucura, insistente, de novo?

– Não, sou eu, a liberdade.

– Ah, por favor, entre e fique. Mas de você, vou cobrar o pedágio no valor de um abraço. Porque de pira,  a gente se enche diariamente, e o que eu to precisando mesmo é ser livre.

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por Leonardo Caruso

23:16
Esperando em Piracicaba, é de lá que partiria meu ônibus rumo a Londrina. À Londrina.
Alguns conhecidos já estão lá. Amigos meus cujos pais são amigos de meus pais. Como o ônibus só sai próximo à meia-noite, um pouco de papo rola. Depois de uns 15 minutos e de meu pai ter tomado café, ele parte. Fico apenas a observar ao redor enquanto espero dar 23:55 e anunciarem meu ônibus. Não demora muito, mas as coisas estão diferentes. Até o momento não sabia o que era, mas havia algo diferente.
00:10
Dentro do ônibus, sentado em dois bancos, já que não tinha passageiro ao lado. O “Garcia” é novo, suas lanternas de leitura são de LED, ou pelo menos pareciam. As saídas de emergência são modernas, tudo muito bonito e espaçoso. E a janela só pra mim. Quanto tempo não olhava para o céu, admirar as estrelas e pensar no futuro. O futuro, incerto.

Era a primeira vez que viajava daquele jeito, pensando na vida. Parecia as viagens que fiz de Araraquara, no tempo em que estudava engenharia em São Carlos e namorava uma menina na Pequena Londres. Parecia essa viagem, mas era diferente. É diferente.

Quando vinha pra “UEL”, vinha por causa da minha vida social e amorosa. Vinha pra me sentir bem e fazer alguém se sentir bem também. Acredito que fiz. Tenho certeza que me senti bem. Mas tudo mudou quando eu ouvi que tinha que pensar em mim, estudar e fazer meu futuro. Que com certeza não era na engenharia. Acreditei ser possível somar o prazer em estar perto de quem se gosta ao de se realizar acadêmica/profissionalmente. Talvez pudesse ser diferente. Não foi.

E essa viagem foi, mas não era. Parecia aquelas de Araraquara, em que tudo se apresenta como inédito e desconhecido. O banco vazio ao lado (apesar de não ser comum, era mais freqüente que “nos dias de hoje”). Parecia aquela época, em que eu conversava com um desconhecido: “Eu estou indo ver minha esposa (…) sabe, eu namorei uma garota que me levou para o caminho das drogas (…) mas agora estou noivo e faz anos que não uso nada (…) é questão de saber dar valor a quem está querendo nosso bem…”. Ou então escutando duas senhoras querendo matar saudade dos netos.

A viagem me lembrava aquele tempo, mas com os ponteiros em outra direção. Não volto mais pra Londrina para sorrir para alguém e esperar um abraço e carinho. Não volto mais pra dizer eu te amo para alguém. Nem escutar. Não volto mais pelo pessoal. Volto pelo profissional. Pelo futuro que cobra meu esforço naquilo que descobri que gosto de fazer. Troquei um sentimento pela vontade de ser quem sou.

A viagem parecia igual: carros, malas, passageiros, rodoviária, silêncio e fones de ouvido. O céu parecia o mesmo e a estrada indicava o mesmo caminho. Mas as coisas haviam mudado. Talvez a vontade de conciliar pessoal/profissional ainda exista. Talvez sinta um vazio. Mas “talvez” não faz ninguém feliz ou melhor.

Na verdade, a viagem é a mesma, só os “talvez” que mudaram.

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por Vitor Oshiro

Lembrar de quatro anos atrás é bastante simples. Com um mínimo esforço, já vem à memória aquela sensação de quem acaba de abandonar o lar e agora tem nova moradia. Os amigos parecem distantes. Aqueles com quem ele inicia uma conversa, parecem desconhecidos. Na verdade, eles são desconhecidos.

Tudo não parece se encaixar. Em todas as falas e conversas, o “recém-chegado” tenta encontrar um traço do que deixou. É uma história antiga. Um rosto que se parece com seu antigo vizinho. Uma voz que lembra a sua mãe. Mas, nada é. Tudo é diferente e novo.

Com o passar do tempo, ele percebe que as coisas não são tão ruins quanto parecem. Os novos lugares passam a se tornar familiares. Os desconhecidos passam a compartilhar coisas em comum. Os antigos amigos ainda são preservados e os novos já se parecem antigos.

Ele finalmente se ambienta. Está acostumado com sua rotina e tem certeza de que aquele é seu lar. Ir para a antiga casa? Só em algum feriado. Mais do que isso já começa a enjoar. Parece que a idéia de ir “fazer faculdade” em outra cidade foi bastante acertada.

Mas, como um ciclo, novamente a vida está prestes a mudar. Os amigos tomarão caminhos distintos. As histórias que ainda cheiram novidade começam a vestir capas antigas. O filme que era colorido vira preto-e-branco.

Lembrar de quatro anos atrás é bastante simples. Porém, pensar em agora é difícil. Pensar que estamos novamente abandonando tudo e rumando outros caminhos corta o coração.

Alguns choram. Ele não. Prefere sofrer calado.

Não chora porque sabe que uma nova etapa se inicia. Não chora porque sabe que vai preservar sua antiga vida. Não chora porque tem medo de chorar e não conseguir mais parar.

Lembrar de quatro anos atrás será mais simples no futuro. Mas, agora, é enormemente triste.

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